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Navio Djavan

Gosto dos seus tons Gosto do seu brilho Do seu ritmo também Dos caminhos que você percorre Gosto de todas flores Que roubam seu perfume Espalham pelo ar Que eu respiro E jamais quero parar Vou vivendo e sonhando Com o dia do encontro Com o nosso amor Em um navio chamado Djavan O toque do violão Música para iluminar Aquela noite preta  Oceano é filho mais velho Da mãe natureza Sua arquitetura tão perfeita Simetria de uma orquídea  Tão bela em uma parede Que eu já nem sei qual cor Mas parece seu olho verde

Periferia

Aqui na periferia Tem poderoso todo dia Passam por aqui Dentro de seus aviões Por cima da nossa carne seca Dedos no nariz Para evitar o cheiro De pobre feliz Aqui embaixo, Vivemos de braços para o alto Mas nem precisa se preocupar Não conseguimos alcançar  O seu bolso, sua carteira e o seu celular E quem mora aqui é gente Gente sem espaço  Procurando o seu Todo dia tem obra E o arquiteto é Deus Durante o dia O asfalto ferve E o som está sempre no volume mais alto Brincadeira de policia e ladrão  Não importa o lado escolhido Sempre tem emoção No cair da noite Todo gato é pardo O vizinho do lado Grita e pede socorro Periferia todo mundo ajuda  Todo mundo sobe o morro É, é, é Aqui é povo de fé! É, é, é Vem tomar um café!

Meu Pai

Meu pai não era Pedro Mas casou no dia dele Foi feliz do seu jeito Jeito tão simples Nunca fez pose Nunca foi modelo  Cigarro na mão  Veneno verdadeiro Dias eram bem vividos Noites nem sempre bem dormidas Eu sempre enxergava um gigante Que com o tempo foi curvando Aprendendo e ensinando Gostava do mar Mas respeitava o oceano Sua moda era não ter moda Guarda-roupa vazio Gostava de sua velha blusa Mesmo quando não estava frio Seu shampoo era de cevada Mergulhava de cabeça  Sua falta de cabelo Personalidade batizada Quando ouvia o som do rádio Virava artista Não era mais aquele Eternamente em movimento Mesmo em distâncias curtas Era de paz e gostava da rua Meu pai não era Pedro Mas morreu no dia dele

Carta de Elis (Regina)

O livro fechou E eu perdi Aquela página da carta Que dizia mais ou menos assim Vou começar Com um belo "te amo" Tudo tem tanta graça  Bem diferente do que era antes Você ajeitou, melhorou Minha vida Até aquela velha gargalhada  Que estava guardada Voltou Nunca tive medo  De sua mão em meu cabelo "Apenas sua mão" O seu olhar, Olhando sério pra mim Olhando meus olhos Suas poucas palavras  São sempre suficientes Para alegrar meu dia Meu corpo, minha mente E se eu errar Não me culpe de nada Perdoe eu ser assim  Tenho certeza que seremos felizes Você vai ser feliz Meu amor por você é infinito  E mais uma vez repito  Eu te amo meu filho

Como Posso Chamar de Droga?

Como posso chamar de droga  Aquilo que me faz tirar os pés do chão Voar e passar por cima dos meus inimigos Enxergar cores lindas Dançar depois de apenas um piscar de olhos? Como posso chamar de droga  O que me faz feliz Dá o prazer que eu nunca tive Que traz luz para minha escuridão Faz eu perder minha timidez E que me deixa mil por cento mais bonito? Como posso chamar de droga O combustível que faz eu atravessar o mar Brigar com valentões Destruir barricadas  Andar pelado sem vergonha Ver o sol de frente? Como posso chamar de droga O que me faz pegar em uma arma Mirar na própria cabeça  Apertar o gatilho Não sentir dor E não ter nojo de morrer em uma poça de sangue?

Cem Anos

O que vai ser da gente Daqui cem anos? Será que vamos conseguir voar? Vamos ter casa em Marte? Será que vamos ter poderes? Ou vamos continuar Nessa mesma mesa de bar? De bar Será que daqui cem anos Vamos entender o mundo? Será que o mundo vai continuar nos odiando? Mas enquanto isso Viramos mais alguns goles Em noites que não têm fim E sobre nosso futuro Será que você vai continuar a fim? A fim de mim? Vamos dar um abraço Daqueles de durar séculos Depois beijos Mais abraços quentes Até o ponto alto Mais aí já é segredo Não revelamos intimidades Somos maiores de idade Nem todo pecado causa medo Tão bom sentir O vento batendo no rosto Refrescando o corpo  Depois do prazer  Que nossa vida tenha leveza De mil bailarinas Dançando em campo minado Não fazendo pose Mantendo a beleza

Freio

Uma carreta surge do nada  Sem freio Atropela sem dó  Passa por cima  Esmaga o cérebro  Mas deixa o coração intacto Na placa, A palavra amor E amor é bom Mas também sabe maltratar  Faz gente esperta  Ficar boba e sem rumo Mesmo usando radar E quando a gente morre de amor É sempre uma morte diferente A gente continua vivo Ouvindo pássaros O mundo não tem de repente O céu dos apaixonados É recheado de instrumentos musicais  Anjos tocando harpas O céu dos apaixonados Têm nuvens de algodão  Não existe noite Mesmo sozinho Apaixonado nunca está na solidão

João e o Pão

João comeu o pão que o diabo amassou Tomou banho com água fervendo Matou sua sede com ácido  Lambeu o chão e cuspiu no prato João matou o diabo com ácido  Comeu no chão  Tomou banho com cuspi Limpou o prato com pão Cama de prego Sofrimento é prazer Todo dia mesma coisa  Vivendo sem querer  Vida de João Mas poderia ser José Amanhã ser cachorro É melhor do Mané Mas,  João conhece o amor O amor vem antes do pensamento O amor está dentro dele Só falta saber colocar pra fora Nascer e morrer Nem sempre tem hora

Morto

Sou um morto Dentro de um corpo vivo Sou humano Humano sem juízo  Não vivo, Sobrevivo  Com choro e com velas Nas mesas dos bares Nos lares, Em prisões sem janelas O que não conheço Dentro de mim Descubro olhando o meu semelhante Defeitos expostos Sujeira exalando O que muda é nossa mente brilhante Tenho meus traumas Alguns de infância Perdida em um passado qualquer E daqui só enxergo flores Não vejo cores Eu só queria conseguir mexer meus braços Estranha sensação Não ter pernas Mas ainda dar longos passos Flutuando, Caminhando em nuvens Olhando chuva aqui de cima Minha música não tem sentido  Mas tem rima

Caetano

Caetano cantando Caetano dançando Caetaneando O Djavan sabe o que é bom E nós entendemos  Entendemos tudo Caetano é ser O que é ser um Caetano É ser tão profundo Caetano é preferido Talvez não por ele Caetano é dono Do nada, Do tudo, Tudo é ousadia  Caetano é mania O que seria Seria de Caetano sem o mundo De Caetano Caetano é o bicho  Biologia É qualquer coisa Filho da luz É aquilo que brilha Sonho magia Poeta Irmão de Maria Brasil de Caetano  Cara de Brasil Brasileiro é estranho Objeto de canto É tempo que não passou Caetano é risada A boa gargalhada  Gargalhada do baiano

Matemática

O melhor momento da escola Era aquela hora Hora da merenda Que alimentava o meu saber Matava fome do meu bem querer Quando eu escrevia seu nome na carteira Sempre com lápis para depois apagar Mas da minha mente Nada de desaparecer  E quando em seu caderno eu lia  Um poema de amor Eu nem imaginava  Que um dia viraria canção  No nosso currículo escolar Tenho saudade daquela nota seis Da emoção que eu sentia  Quando não tinha noção  Do resultado da prova Do trabalho de geografia E até hoje estou Em plena recuperação Era aluno Hoje sou humano Fã de humanas E na minha vida Nenhuma matemática é exata Sou dividido como uma raiz quadrada

Tribalistas

Vamos tomar uma coisinha Sentar em uma mesa de bar Conversar uma noite inteira Falar da vida Do que nos resta Do que nos trouxe até aqui Vamos namorar ideias Separar relatos Casar pensamentos  Sobre nós mesmos Somos sorrisos Que se perderam com o tempo Bocas que falam Orelhas mudas Cruzamos palavras Em noites escuras Precisamos entender pessoas Somos poliglotas solitários  Estamos perdidos nesse mundo O peixe acha estranho quem está fora do aquário