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Canudos

Quantas vezes eu pensei Em tirar minha vida Quantas vezes eu desisti Pensando na tristeza da partida Sem falar dos vagabundos Sorrindo pelo mundo Contentes com minha despedida Pulsos cortados Canetas virando canudos Gritos absurdos Uma noite sem fim Para ter sombra É preciso ter luz O medo é o que salva Me faz pisar no freio Só eu sei o tamanho da cruz Tudo vai ser natural Como um cheiro, um tapa Vou esperar quem eu não acredito Tirar meu nome da lista Fazer um risco Vou embora sem dar pista

Proibido

Quem nunca teve um sonho proibido? No fundo todo sonho é proibido É uma história mal contada É um verso bem escrito Quem nunca quebrou garrafas? Eu já, Copos e xícaras também Gosto de pisar em cacos de vidro Mastigar cordas de um violão Batucar um samba, Um samba na hora de pedir perdão Sou herdeiro de uma voz Que não escuto, mas sinto Tudo é sempre tão estranho Flores para o amor, dor, velório e pranto Acordo chorando, depois que morri cantando Encontros, desencontros Acertos, desacertos Corpo sem peso, corrida sem chegada Noites quentes, dias frios Todos os segredos em uma carta bem guardada Depois de nascer e antes de morrer É o tempo de respirar e sonhar

Karnak

Eu queria ter a sinceridade De uma criança, de um cachorro e de um velhinho Eu queria ter ideias vulgares Ser aquele cara otimista Pintar um quadro, virar artista Ser filho de um provocador Conhecer todos os lugares, o caos Enfrentar os males, mesmo com dor Minha imaginação é um grande problema Para o bem e para o mal Vou prender minha liberdade Na trilha sonora de um filme Vivo tentando entender frases Vejo tudo e não enxergo nada O mundo anda chato e não é só uma fase Quando não procuro, eu acho Conto verdades quando estou mentindo Gosto de escutar o silêncio Vida é uma causa perdida Um retrato sem sorriso Uma noite para ser esquecida

Perguntas

Tenho muitas perguntas Mil e uma dúvidas Sou um curioso querendo saber Preciso de respostas antes de morrer Eduardo e Mônica ainda estão casados? Será que o segundo sol ainda brilha? Aquele casal continua pelado? Como é mergulhar em uma piscina cheia de ratos? Jesus continua sem dentes no país dos banguelas? Os instintos continuam sacanas? Natasha ainda tem cabelo verde? Será que os loucos ainda sabem? O Brown ainda está com sede? Onde estão os lenços e os documentos? Um ainda trabalha na feira e o outro na construção? O corpo continua atrapalhando o trânsito? O latino-americano continua com medo de avião? Xícaras continuam sendo quebradas? Detalhes continuam pequenos? O bêbado ainda está trajando luto? Amigo fica em qual lado do peito? Rua, chuva ou casinha de sapê? Bicho pega ou bicho come? O Tim Maia ainda gosta de você?

Cruzeiro

Um Cruzeiro, Um tricolor em um Cruzeiro Uma lasca do Alasca Um som, um som de peso Eu sei por onde ele andou Andou esse tempo inteiro Cantando em um navio Rodando, navegando pelo Brasil Um palco, um trio no palco Tocando e cantando O que você sempre soube, Mas nunca viu Nossa vida continua frágil Agora mais ainda Mas enquanto existe vida Tenho força, tenho esperança

Drão Sim, Drama Não

Aprendi com o Gil Não precisa ser sempre igual Todas as maneiras, muitas maneiras Melhor maneira de ser natural Você vai, ele já foi Você foi, ele já vai Para qualquer canto Com toda facilidade Ligado, antenado Quem não sonha com um abraço, Aquele abraço O cara é herói, Super-Homem Homem de aço O mestre, sempre o mestre Do passado e do futuro Eterna linha do tempo Do tempo que é rei Não se perca pelas letras Rei é majestade, é um pouco mais de vida Salve todos, salve pai, Salve o Brasil! Faça Drão, não faça drama Viva, viva, viva Gil!

Ela Não é Carioca

Ela é gaúcha Ela é bonita como uma praia carioca Ela tem ideias ensolaradas Ela gosta de liberdade Ela tem um olhar diferente Ela é diferente Ela sabe o caminho da estrada Ela gosta do simples Ela enxerga pedras Ela curte gente pela calçada Ela só queria uma camiseta Ela só queria ter tempo Ela só queria fazer uma canção Ela não queria conhecer os caretas Ela ama os loucos Ela não gosta de gente normal Ela enxerga beleza em tudo Ela gosta de sotaque no plural

Sou Eu

Mais um nove de abril Sou mais um ariano torto Com orgulho um louco Sou alguém que você nunca viu Poeta, homem das palavras Um pouco de tudo, de tudo um pouco Um perdido no mundo, Um desenho sem contorno Sinto o peso da idade Minha idade já é quase metade De uma vida inteira Sou um livro sonhando ser escolhido Sou o passar das horas Um velho cansado subindo uma ladeira A surpresa do destino, o frio do outono O beijo do campeão na bandeira Ator de uma novela real Dramático, cômico Um palhaço sem igual Todo dia, mais um dia Procurando paz, sendo paz Poucas tristezas, muitas alegrias Sou areia que vai com o vento O que distrai o tempo

Um N Bão

Pode não parecer, mas o mundo é "bão" Apesar de tudo, vai ser sempre "bão" Chorar mágoas na mesa de um bar Escrever no guardanapo uma canção Isso tudo também é "bão" Canções são tão proféticas Quando a gente ouve em outra época Tudo se encaixa naturalmente Parece que foi feita para gente Tem um "Q" entre nós, ou um "N" Aí depende do ponto de vista O que você acha que é, nem sempre é Pois tudo pode na loucura de um artista Nada substitui um abraço Nada se comprara com o real O beijo, o gosto, o cheiro, presença Tão esquecida, mas tão essencial Quarentena tem mais de um "N" N de nada, de namoro, de Nando Que é Fernando E Fernando tem "F" de felicidade Felicidade quando eu ver de novo Seu sorriso acabando com minha saudade

Engano

Comprei um livro por engano Chegou um livro de amor Versos e poesias em duzentas páginas Corações sendo esfregados em minha cara Até pensei em devolver, desisti Agora tudo são flores, um mar de rosas Frases clichês, mas sempre bem colocadas O poeta morreu novo, pouca idade Deixou sua obra, palavras tão bonitas Sentimentos, histórias de um apaixonado Pérolas para todo o sempre, para toda eternidade Li e reli, Já posso ir dormir E quando eu acordar, Vou rasgar página por página Minha fúria é marginal Não vai sobrar uma linha Muito menos parágrafo para contar história Vai ficar tudo aqui dentro, No peito e na memória

Tanto II

Ela gosta tanto Daquela canção que eu fiz Que fala de uma garota, tão linda Ela nem sonha, não imagina Que tudo que eu falo é para ela, Tudo pensando nela Ela fica tão bela, dançando Também gosto tanto, Tanto dela Será que ela aceita ir lá em casa Ouvir uma música, ganhar um tempo? Vou ler minhas poesias, Fingir que estão nas páginas de um livro Depois quem sabe um beijo Cheio de versos e rimas Amor de brisa, maresia Amo, Tanto o seu jeito Coração vive apanhando, Algumas vezes balançando, Não para Como diria minha avó Quando casar sara O que não mata engorda E amor nunca matou ninguém, Faz até ressuscitar Agora não sou louco de morrer Sem ouvir de você Eu te amo também Eu te amo, tanto

Maria Bethânia

Meu país é árvore É água, é raiz É morada do mundo Meu lugar é aqui Atravessei continentes, Barreiras, fronteiras Sempre voltei Sem medo, com faca nos dentes Deus é brasileiro Deus é meu irmão É fé, axé É minha canção Sou festa, Sou arte, Sou luz, Feitiço que encanta Voz do sertão Voz que seduz