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Veneno

  Lâminas cortando pulsos De moços tão puros Garotas e suas saias curtas De suas casas expulsas Sujeira embaixo do tapete Hipocrisia familiar Pai herói dos frascos e comprimidos Mãe da heroína Fingindo saber amar Sofrimento em silêncio Sorriso amarelo, falsos sorrisos Tristeza que o tempo Só faz aumentar O melhor jeito de morrer Sem dor, poucos segundos Veneno que vai fundo Nó de gravata, forca Viver e sofrer Pressão, depressão O sonho de um Não é o sonho do outro Cada um segue o seu caminho Tudo por um fio, tudo por pouco Lâminas nos pulsos

Rotina

  Café ou cerveja? Risos para quebrar o gelo Temos tempo, ainda é cedo Você prometeu, duvidei Apareceu mesmo O apartamento é pequeno Mas cabemos, cabemos Um no outro, dentro Água na geladeira Pode usar minha camiseta Depois do banho, quarto Talvez um retrato Amanhã vai ser melhor Sem arrependimentos Porta aberta, sempre E não esqueça, não esqueça Tire os sapatos e todos os grilos De sua cabeça Vamos vivendo Até virar rotina Chame seus amigos Eu convido uma vizinha Uma inocente festinha Nem tudo é perfeito Um dia é briga, no outro alegria Piada ficou sem graça Muito sal na salada Erros e exageros Foi bom enquanto durou Foi bom, foi sim Antes do fim definitivo O respeito ainda não acabou

Esquina

  Um bar de esquina Sem muita luz Cheio de brilho De mesa em mesa Nenhuma certeza Um doce amor Outro depois Bocas de sobremesa Troco dinheiro por beijos Por duas ou três doses Troco dinheiro por beijos Cigarros, outros temperos Copos americanos Farra brasileira Não existe paz Ninguém quer paz Gostos e sabores Noite inteira O sol já acordou Cara de ressaca Alegria não passa Fazendo graça Mais tarde é madrugada Um bar de esquina Alguns beijos

Farmácia

  Remédio para dormir Remédio para sorrir Para uma vida sem remédio Remédio para fugir Remédio para morrer Para permanecer no tédio Uma dose pela manhã Duas vezes ao dia Droga disfarçada de vitamina Você é minha droga Você é minha rotina Comprimido, pó Na veia, xarope Estado de choque O mar, o sol O precipício Melhor remédio é o alívio Muito dinheiro Sem saúde Comida sem tempero Remédio para dor que não passa Desespero Dor da alma Tristeza também é dor O melhor remédio é amor

Passado

  Música antiga, tempo bom Bons momentos da vida Relógio andando para trás Era tudo tão simples Difícil, mas simples Guerra de papel Briga por iogurte e sorvete Piada do pavê Mesa cheia de parente Lembrança de quem já foi Quem não mora mais nesse planeta Em que ano morreu O vô e aquela vizinha xereta? Trilha sonora de novela O mocinho era bom Mas o vilão era demais E toda tecnologia Boneca falante da filha Barbeador do pai Rádio a pilha Tenho saudade De quando eu era feliz E sabia Saudade de um tempo Que não volta Mas era cheio de alegria

Velho

  Hoje é meu aniversário Amanhã também Mais um no final de semana Outro na semana que vem Sou o contrário daquele moço Nasci no século passado Estou sempre nascendo de novo Experiente velho Com minha gaita, meu violão Conto mil histórias Tenho boa memória Sou fruto de uma linda canção Escuto, mas não entendo Vozes distorcidas Encontro respostas no fogo O pássaro é um artista Dá um show quando está solto Pessoas nas janelas Lenços balançando Logo não estarei mais aqui Quem sabe um dia eu volto Daqui uns duzentos anos Quando o mundo virar outro Ou quando não existir mais esse povo

Beijo

  O beijo vem de longe Vem de barco, vem de navio Chega invadindo Meu porto, meu corpo Chamado Brasil O beijo vem descendo Vem pelo mar Caminho das Índias Lá da Grécia antiga Vem com gosto de beijar O beijo vem com o vento Lá do outro lado do mundo Barulhento, gostoso Vem lá de cima Pelas ondas, em movimento O beijo importado Faz estrago em meu coração O beijo sem fronteira É vulcão em erupção Em qualquer país Um país qualquer Continue mandando beijos Pelo ar, em minha direção

Sob Pressão

  Desenhos em nuvens Eu vejo objetos estranhos Você vê tudo diferente Seu olhar sempre foi mais bonito Faço pequenos dramas Você vem com solução Escrevo textos e cartas Você mais prática O cérebro brigando com o coração Tudo está tão diferente O céu sempre nublado O sol desapareceu Ou estamos olhando para o lado errado? Também não vejo estrelas Mas você diz que todas estão lá Amar é andar no escuro Não ter medo e confiar Em seus braços Toda minha paz Toda sua paz Dentro de mim Dias e mais noites Vamos juntos, juntos Até o fim

Diaba

  Ela é boa É muito boa Malvada é melhor ainda Brinca com facas Cospe fogo Na vitrine exibe o corpo Faz bruxaria É simpática Para não matar mais um Já matou mais de cem Cortou em pedacinhos Fez um refogado Comeu com pimenta Dividiu com o gato Angelical, Diaba Mortícia, Mulher Maravilha Todas em uma só Ela não tem dó De mim Toda de preto Toda de vermelho Toda colorida Bebendo meu sangue Em cima da pia Fez eu virar pó Ela não teve dó De mim

Tudo Que Eu Sei

  Para ter fruto É preciso ter flor Para ter amor É preciso ter olhar Para morrer em paz É preciso ter perdão É preciso perdoar Todo vidro nasce areia Nem todo peixe vira sereia E toda linda pérola Nasce feia Tudo que eu aprendi Tudo que eu sei Tudo que eu aprendi Tudo que eu sei Nem toda porta É para ser atravessada Nem toda planta É para ser molhada Quem está disposto Sobe até pela escada Quem está se afogando Pede socorro O chefe poderoso Não mora no morro Primeiro beija Depois pede em namoro Tudo que eu aprendi Tudo que eu sei

Bigode Felino

  Bigode fino Um é de paz Outro do agito Roda por aí Anda sem destino Independente Parece até gente Banho de língua Sete vidas Pula, sobe, desce Brinca, desaparece Na sala, no quarto Terraço ou telhado Preto, branco, pardo De toda cor Cor de todo amor Na rua, sem amargura Foge do cão Persegue o rato O mistério nasceu Nos olhos de um gato Felinos Sem obstáculos Em seu caminho São simplesmente Felinos

Amores

  Quantos amores cabem em uma vida? Quantas vidas eu preciso para ter um grande amor? Viver ou morrer? Morrer e demorar mais um século Para viver simplesmente um amor Renascer Todo dia um novo amanhecer Acordar e não saber Conquistar pela última vez Antes que seja tarde Sempre renascer Todo mundo é puro Até o primeiro beijo Toda chance é uma segunda chance É a chance de algo verdadeiro Quantos amores cabem em uma vida? Já não sei em qual vida eu estou O brilho nos olhos Antes que tudo acabe Ou será que já acabou?