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Garganta Seca

  Meia-noite, novo dia Hora que o pobre Continua sendo pobre Que nada muda Na terra dos gigantes Meia-noite Menino não dorme Irmã que chora Mais um dia com fome Um filme de terror Baseado em fatos reais Urubu come carne Finge que está tudo em paz Grito permanente, vivo Preso na garganta seca Nunca sai Olha para o céu nublado Enxerga estrelas Otimismo é ciência Fenômeno da natureza Corrida sem chegada Por um prato de comida Por um prato, barriga vazia Meia-noite, novo dia

Cena

  Está chorando Na frente de todo mundo Para o grande público Anônimos, desconhecidos Poetas, músicos Sua lágrima vai virar canção Respeito seu silêncio Nem te conheço Você tem todo tempo Deite aí no chão Vejo sua cena Tenho até pena Mas esse é o roteiro Quando não termina em beijo O fim é solidão Não importa o motivo Tristeza sem filtro Todo mundo é meio filho Sem mãe, sem ombro amigo Quem vê cara, vê coração

Cores Infinitas

  O chão é o seu céu Passa por cima Pisa sem dó Divina divindade Beleza rara Amor que amarra Boca que desata nó O céu é o seu espelho Brilho, reflexo Viagem no tempo Dentro do seu olhar Mergulhar Braços abertos, de joelhos Perfume de brisa, de mar Quadro de Van Gogh Seu passado, uma tela Hoje aquarela Suas cores infinitas, distintas Saudação, beijando suas mãos Um gesto para cada sim Outro para cada não Sua realidade Meu sonho mais bonito Imagem distorcida Maldade ou vida Sangue, ferida Minha cara, sua alegria

Tardes Frias

  Morreu de tanto amar Morreu de tanto amor Morreu feito poesia Rimando flor com dor Morreu de tanto sonhar Morreu ao acordar Morreu feito poesia Lindas palavras, boas rimas Morreu igual terra seca Árvore sem fruto Clandestino sem um puto Morreu sem cair De olhos abertos Ferido por dentro Sem tempo de fugir Morte matada, morte morrida Morte em vida Um plano, uma trama Uma ideia mal construída Após um café curto Olhou para o infinito Cantou Belchior Terminou com um grito E continua morrendo Em tardes frias de domingo

Azul

  Tudo ficando azul Meu pai com sua barba longa Parece ser o fim Pode ser o meu fim O mar está sem ondas Não tenho mais inimigos para lutar É hora de decidir Quebrar os ponteiros Ou deixar o tempo para trás Eu não sou daqui Não sou desse lugar Vou voltar Para o meu primeiro lar Vou para casa de mamãe De onde nunca deveria ter saído Atrás do seu umbigo Sou paz, sou o seu filho O som da gaita é tão triste Dizem que a morte não existe Então para onde eu vou? Para onde eu vou? Eu não sou daqui Aqui não é o meu lugar

O Sol Que Está Brilhando

  Noite rebaixada pelo sol Que brilha, brilha Estacionamento de alegria Agora posso ser um pouco mais feliz Agora sou mais feliz Ouvindo o som do sim Agora é tentar, não errar Correr atrás Flores que comprei, guardei Por tantos anos esperei Não entreguei, chorei Hoje tudo está diferente O sol está brilhando tanto Parece até aquele dia Bons tempos, momentos Agora estamos em uma nova fase Amor, amor e poesia E quando o sol vestir seu véu Quando virar lua Já não é mais como era antes Agora é muito melhor Tristeza, toda tristeza Cada dia mais distante

Raiva

  Tenho raiva de mim Tenho raiva dos meus atos Não aprendi com meus erros Fui mal acostumado Tenho raiva de tudo Tudo que não faz bem Mas que eu aceito sem reclamar, lutar Raiva de mim e de mais ninguém Eu tenho medo de mim De tudo o que sou capaz De fazer com a cabeça fria Eu sei o principal caminho Cada gesto, cada passo Momento exato Sei muito bem engolir você Para o meu doce louco prazer Zoológico de vidro Nessa jaula sou bicho Curtindo meu castigo Nó na garganta Pulsos cortados Clima pesado Já tirei o uniforme Ninguém mais fala o meu nome

Todo Dia

  Todo dia uma mudança Todo dia um novo olhar Todo dia um bom dia Todo dia eu quero estar Junto com você, com você Ensinar e aprender Ensinar com palavras Aprender com seus sinais Entender que amanhã Tudo vai estar diferente Essa é a graça, toda graça Criança virando gente Vou soltar sua mão Mas não vou sair de perto Vou acompanhar seus passos Estou sempre ao seu lado Quando quiser, sempre Volte para os meus braços Vou ficar bem, está tudo bem O mundo tem o seu tamanho Felicidade é um plano Viva e seja feliz, sou feliz Aqui apenas observando

Século

  Nossa diferença, nossas diferenças Você vinte e dois Eu cento e vinte dois Um século e muitas crenças Monstros e doenças Estamos aqui, ainda estou aqui Nasci e morri tantas vezes Agora sou eterno, sou presente Sou o amor O amor que você sente Dormi uma noite Acordei anos depois Você ainda com vinte e dois Juventude que não cansa de nascer Perdemos o medo de ter medo Medo de sobreviver O reflexo no espelho Esse corpo ainda é meu Muito seu Até o fim dos dias Até o fim da humanidade Gostamos de viver nossas manias Um labirinto sem saída Não podemos voltar para o início No jogo da vida pulamos três casas Ou chora ou abraça Você vinte e dois Eu cento e vinte e dois

Deus

  Eu vejo Deus no bom dia No obrigado, no sorriso No rosto triste Dentro da solidão Eu vejo Deus nas nuvens Na mulher com sua bolsa No grito de perdão Eu vejo Deus, eu vejo Na garoa fina Na droga que brilha Na maldade, na sinceridade No que diz amém Na fé do seu axé Eu sinto Deus Quando estou com roupa Com roupa errada ou sem Eu sinto Deus, eu sinto Dentro da sua raiva Na canção que não acaba Na voz da cantora Quando tem morte Quando perco toda minha sorte É preciso tentar Não tem problema errar Quem arrisca Deus não castiga

Mentira

  Quanto tempo dura uma mentira? Quanto dói uma verdade? É preciso ter coragem É preciso saber lidar Dignidade Pode ter até palavrão Na cara, direto Ninguém gosta de agressão Que você entenda Minha brisa, meu jeito De dizer sim, dizer não Apontar o dedo Atravessar pessoas Cruzar caminhos, momentos Mudar o tempo Qual é o tempo exato Para cuspir no prato Que o inimigo comeu? Minha honestidade Em xeque, em jogo Chorar ainda é pouco Explicar o sentido da vida Só Belchior e a bíblia Quanto tempo dura uma mentira?

Eclipse

  Todo dia um eclipse raro Duzentos anos passando tão rápido Vida é um sopro, um raio Luz que ilumina, luz que apaga Amanhã logo vira ontem É preciso pressa, urgência Não temos todo o tempo do mundo Não temos tempo Para distrair com bobagens Para errar o chute, acertar a trave Hoje é tudo, tudo Rumo ao desconhecido O fim é um precipício Mas é preciso pular, mergulhar De cabeça, sem medo Para aprender flutuar Eternamente jovem Vivendo ou morrendo Seja estrela, brilhe Mesmo depois da partida Todo instante é uma despedida