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Retratos

  Garota fazendo pose Tirando retrato Caras e bocas Mulher com criança Segurando para não cair Ninguém ofereceu lugar Rapaz ousado Cheio de estilo Quase um vestido Olhares doces Outros proibidos Não deu tempo de nada O trem parou na parada Todos desceram Linha de chegada Outro dia Tudo de novo Mesma garota Menino e sua mãe O cara ousado Vestido rasgado Muito monólogo Pouco diálogo A vida é um teatro Muito mal ensaiado

Mãe e Meretriz

  Dois, três passos do Paraíso Consolação Suas guerras e conflitos Grito silencioso dos aflitos Roupas e suas cores Ternos, vestidos O maior de todos os pecados Por todos os lados Seus filhos e adotados Todo dia é seu aniversário Todo dia sempre ao contrário Plantas fugindo dos seus vasos Gatos e gatunos nos telhados Lá vai mais um desesperado Queimando os joelhos no asfalto Cidade de Paz Cidade de mãos ao alto Seus quadros, seus quadrados Enquadros Seus ângulos, retângulos Seu círculo vicioso Dramas e comédias No palco principal Povo todo misturado Mas nem sempre igual Tão grande, tão pequena O lixo que alimenta O luxo que ostenta Tentando ser feliz É mãe e também meretriz

Noites

  Depois de uma noite Cazuza Acordei meio Legião Quem sabe amanhã Eu esteja diferente Quem sabe Djavan No meu canto sendo Nando Sendo quase Santo Quase um pranto Eu não quero mais ficar Nem mais um segundo Aqui nesse lugar Acordei de banda Madrugada já é dia Nunca estou em uma pior Quando a tristeza ameaça Mostra sua cara Vou logo ouvindo Belchior Meu som favorito Sua voz, seu espirro Seu jeito estúpido de falar comigo Disfarço minhas vontades Em lindas canções Disfarço meus desejos Controlando sensações

Mesa Oval

  Poetas reunidos Uns mortos, outros vivos Palavras ao vento Eternos saudosistas Loucos de pedra Decididos suicidas Salão oval Mesa redonda Uma nova onda Futuro da nação Pensadores com seus óculos Criando tendências Procurando resultados Analisando consequências Nobres senhores Nobres senhoras O mundo anda tão hipócrita Caretas em suas cadeiras Os bons filhos Da tradicional família brasileira Todos estão pelados Cuspindo em seus pratos Riscando regras em um papel Escrevendo conclusões precipitadas Nenhuma mentira é necessária Poetas reunidos O mundo acabando Idiotas com seus violinos

Flor

  Força frágil de uma flor Frágil força da flor Delicada, decidida Passando por cima De quem duvida De quem ainda não acredita Seus dez braços Suas quinze pernas Sua vontade de ser feliz Na guerra é guerreira Na rua dá rasteira O que gosta, o que quer Beija homem, quase homem Espelho, mulher É mulher, sim uma flor Seu espinho tem veneno Engula seu discurso pequeno Na chuva lava o cabelo Verde, azul, vermelho Um dia é Bond No outro Indiana É maravilha Caça tubarão Mata barata com um empurrão Força frágil de uma flor Quase frágil, quase flor

Bel

  Sempre encontro Belchior Numa esquina perigosa Numa noite sem glória No momento da volta Depois de apenas morrer Acabou o cigarro Não tenho mais carro Vou de poesia Antes de enlouquecer Sempre encontro Belchior Quando acordo com o sol Quando vou do norte até o sul Quando canto um blues Rasgo livros de literatura Danço com meu jogo de cintura Sopro fumaça no céu azul E quando me perco pelo caminho Quando quase caio no precipício Quando fujo dos inimigos Quando minha salvação é um grito Eu encontro, eu... Sempre encontro Belchior Na hora das boas palavras Numa tarde sem graça

Desfecho

  Voltar no tempo E ter mais tempo Para ser feliz Viver tudo de novo Tudo que sempre quis Rodar pelo planeta Cortando estradas Atravessando fronteiras Por todos os caminhos Contando mentiras verdadeiras Voltar no tempo Contando segredos inéditos Revelando desfechos Curando vários medos O futuro não é tão ruim assim Sua barba vermelha Vai ficar toda branca Sua casa vai ficar pequena Cheia de crianças Toda noite antes de dormir Vai lembrar que esqueceu De molhar suas plantas Tão próximo, tão longe Difícil explicar, melhor esperar Livros sem páginas Livros sem estante Amanhã não é tarde Só um pouco distante Nada como voltar no tempo...

Plural

  Gosto do seu silêncio Mas gosto de barulho Você também E ok, tudo bem A gente se entende Dançamos nossa dança Dançamos outros ritmos Não existe conflito Nossa fome nem sempre é a mesma Cuide do jantar Amanhã o almoço é em outro lugar Aceitamos alguns olhares Desviamos de muitos outros Olhares de hipocrisia Não precisamos explicar O que não tem explicação O que não interessa Amor não é festa Mudar o caminho Desviar a rota Juntos para o que importa Sou mais o Paul Você o John Sou roupa colorida Você roupa preta Sou do sol Você lua Gostamos um pouco mais Multiplicidade Somos plurais

Leia

  Sou um livro Páginas e mais páginas Capítulos secretos Leia até amanhecer Devore cada linha Até entender Biblioteca Orgia, overdose Prazer para dar e vender Emprestar Todas suas letras O tesão de ler Romance, biografia Sou voraz Sou poesia Faça um resumo Um rascunho Coloque no papel Suas impressões O que acha de mim Não vou falar nada Não vou corrigir Decifre essa charada Sou um livro sagrado Leitura obrigatória Doce sabor do pecado Leia...

Morreu

  Quem não queria atirar Atirou Quem não queria matar Matou Quem nasceu para viver Já morreu Olhou para os dois lados Mesmo assim fui atingido Atropelado pelo destino Braços abertos, de joelhos Sob o sol do meio-dia Sangue no peito Não deu tempo de ter medo Desespero com cara de alegria Rastros pelo caminho Marcas, manchas O passado esfolado no asfalto O pecado de nascer Marcado para morrer No rádio uma canção Uma voz desconhecida Um anúncio, uma notícia Uma verdade escondida Desespero sem alegria Quem não queria atirar Atirou

Mãos

  Mão procurando mão Um ato de coragem Mãos dadas, união Juntos somos fortes Somos um Mostrando para o mundo Que lá no fundo O amor venceu Olhares de admiração Raiva, reprovação Por todos os lados Por todos ângulos Felicidade incomoda Tudo é uma troca Boa sensação Olhos vendados Boca amordaçada Ameaça, agressão Tudo isso e mais um pouco Ainda é pouco Para quem apenas quer dar a mão Luz Para quem vive na escuridão

Passou

  O ano passou e só o Luiz não viu Escreveu um livro Tocou guitarra Bebeu cerveja Deu de cara O ano passou Mandou mensagem Correu na esteira Fumou um cigarro Comeu besteira Ouviu Bruce Springsteen Cantou com o Renato Discutiu política Doou para o orfanato O ano passou e só o Luiz não viu Visitou os pais Pediu uma pizza Convidou os amigos E umas amigas Contou histórias Foi ao botequim Muitas vezes disse não Outras poucas disse sim Fez faxina Bagunçou o quarto Quebrou garrafa Tomou no gargalo Pediu autógrafo Saiu do Rio Depois voltou Ouviu Cazuza Fez poesia e chorou O ano passou e só o Luiz não viu O ano passou e só o Luiz O ano passou e só O ano passou O ano