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Cazuza 63

  Meus inimigos envelheceram E eu aqui ainda tão jovem Tomando sol, deitado na areia O mar tem gosto de cerveja Eu vou mergulhar, eu vou Vou nadar até o outro lado Ficar igual Deus apontando pecados Julgando quem ficou parado Eu sou uma ilha, cercado Fugindo de todos os perigos Fugindo de leões famintos De quem quer me devorar Estou tentando escapar Ileso, sem nenhum arranhão Ainda sou tão jovem E tenho bom coração Eu continuo tão inquieto Não segui os conselhos Do fim sempre passei perto Troquei o paraíso pelo inferno Cansei do tédio Vou tocar piano no deserto Alugar um carro em Marte Tomar banho de terno Cuspir na bandeira Fingir que faço arte

Conversa

  Eu converso com plantas Eu converso com antas Converso com Reis e Rainhas Eu converso com anjos Eu converso com Deus O Diabo fala comigo Eu converso com Padres Eu converso com árvores Escuto o resmungo do inimigo Eu converso com pedra Mas ela não responde Eu converso com mortos E nem preciso gritar Eu falo com feras Dedo na cara e tudo Sou fã das palavras simples Converso com gente que nem existe Eu falo com os olhos Eu falo sem sorriso Falo cantando, chorando Falo com as mãos Quem muito fala não diz nada Gosto de conversa boa Papo até o sono chegar Agora só um pouco de silêncio, já é madrugada

Depois

  Meu coração anda tão calmo Uma paz diferente Encontrei o equilíbrio Descobri o segredo Agora tudo faz sentido Hoje controlo o medo Olho meu reflexo no espelho Rugas, cicatrizes, cabelos brancos Gosto de tudo que vejo Marcas da vida, do tempo De quem viveu, de quem ainda vive De quem ainda não morreu Eu amo, amo amar O corpo que eu nunca sonhei Corpo que Deus me deu Gosto de todos os defeitos Gosto de ser imperfeito Feliz por ser assim Feliz até o fim Vou continuar caminhando Sozinho, com apoio, com os anjos Seguindo o ritmo Ser pai, ser mãe, ser filho Nada como um elogio sincero Um pouco de silêncio É o que eu quero

Abril

  Já começou abril Adoro esse vento frio Sou mais um ariano Torto, louco, poeta Igual a tantos Sou aquele que pouco acerta Filho do outono, Filho de uma tarde boa Vamos tomar um café Colocar o papo em dia Todo dia é dia De acreditar no amor De manter a fé Sou igual meus ídolos Falamos a mesma língua Ouvimos o mesmo som Acertamos o mesmo saco Todo carinho vira um caso Vida de carneiro, sozinho abre um berreiro Sei exatamente o que eu quero ser Para pelo menos um momento de prazer Pense o que bem entender Pense o que quiser de mim Não nasci para agradar Não nasci para fugir Já começou abril

Amanhã

  Amanhã vai ser outro dia E tudo pode piorar Aceito suas provocações O seu modo de falar Não pense que estou na defensiva Estou armado, cheio de vida Pronto para renascer Ou mais uma vez morrer O tiro não faz curva Eu que aprendi desviar Seu veneno é de longo alcance Tem sabor amargo Igual mosca no prato É engolir ou cuspir Um passo para frente Contra quem anda para trás Boca calada só com beijo Mordaça nunca mais Liberdade para pensar Achar ou gostar Querer não é poder Mas você pode querer Pode pedir o impossível Sonhar com o pesadelo Uns amam o amor Outros preferem o medo

Abelha

  Abelha é dona do mel Abelha não é dona do céu Ela não chega tão alto Não tem direito de sonhar Trabalha feito burro de carga Sabe bem o seu lugar Abelha com fome Come fruta na feira Depois volta ao trabalho Faz geleia e também faz cera E que você tome cuidado Abelha zangada não dá mole não Tem mira certeira Seu ferrão é uma espada Defenda e ataca Mata em grupo e morre na solidão Zum Zum Zum Em terra de Rainha Operário sem nenhum

Patriotas Idiotas

  Vejo poderosos rindo Fumando seus charutos Derrubando seus cachimbos Abraçados em bandeiras São patriotas, idiotas Frutas podres em uma feira Vejo loucos varridos Falsos bonzinhos, esquisitos Nas filas, nas telas Bem na minha frente Conto os mortos, conto os doentes Pobre dessa gente Não existe lado certo Não existe lado algum O prato continua vazio Vivo no meio de uma guerra Aqui já foi um tal de Brasil Discurso bonito Herói, salvador da pátria Viver é ter sorte, é ter raça Não espero quase nada Estou de passagem Já passei pela linha de chegada Será que vai ter amanhã? Não conte comigo

Ana Terra

  Ana é terra, é bela É chão É força divina Mulher tão fina Poesia e tesão Em noite quente No espelho é gente Pouca luz, sedução Ana e suas palavras Boas palavras O corte da espada Som, brilho, fúria Suave loucura Classe e elegância Beleza na penúria Testemunha dos fatos Amante dos gatos Entre paredes, o ato Amor em pedaços O ponto fraco, desejo Ter sorte é ganhar o seu beijo Ana é terra É fera, é Ana

Inveja

  Invejoso bom, bom mesmo Fala o seu nome dez vezes por dia Invejoso bom Acorda pensando, dorme sonhando Quer ter o que você tem Tem cara de amigo Faz mal fingindo fazer o bem Intimidade forçada Abraço de amor Facada nas costas Inimigo camuflado, Judas Todo cuidado com o traidor Nem todo abraço é de amor Invejoso quer sangue O sangue dos outros Invejoso faz planos Gosta de roubar vidas Está sempre no mesmo retrato Quer comer no mesmo prato Dividir o sabor da comida Só quero viver na paz Viver em paz Longe de sanguessuga Longe desses animais Distante de qualquer filho da...

Chorei

Hoje chorei Está virando rotina Lágrimas em minha vida Tristeza que surge da nada Hoje chorei Igual Elis, atrás da porta Corpo ferido, chorei Eu não era assim Nem sei o que vai ser de mim Entre viver ou morrer Quero apenas parar de sofrer Mais uma vez, mais uma vez chorei Não queira entender Não tire conclusões precipitadas Quem chora quer carinho Um pouco de amor Suas broncas, todas Eu deixo para depois Agora só quero um ombro Onde eu possa desabar Tem hora que a melhor saída É simplesmente chorar Amanhã vai ser outro dia Espero ainda estar aqui O tempo joga contra Preciso dormir, dormir Descansar de tudo e de todos Chorar para quem sabe depois sorrir Quem sabe

Orelha

  Gosto da sua orelha Que escuta meu sussurro Meu grito, meu gemido Gosto de cada curva da sua orelha Onde minha voz desliza Invade, mergulha Sua orelha é um cofre Segredo guardado, trancado Que esconde meu nome Um labirinto sem saída O amor da minha vida Pobre Beethoven, pobre maestro De ouvido no piano Mais nada, sem nenhum plano Sem palavras perigosas Vou lamber sua orelha Refrescar minha conversa quente Vou declamar uma poesia De um lado, do outro Para agradecer seu bom gosto Sua ousadia, sua alegria Martelo, bigorna, estribo Quem tem orelha Tem mais que um amigo Seu silêncio nunca é passivo

Verdade ou Mentira

  Já nem sei O que é verdade ou mentira E nem quero Conhecer sua versão Dos fatos, dos atos Dos pratos sujos Só acredito na sinceridade de um cão Que fala mil coisas Usando palavras repetidas O palco foi feito para todos Até mesmo para os artistas Nem mocinho, nem vilão O culpado é sempre o mordomo Quem bate o martelo Ajuda pregar o prego Fechar a tampa do caixão Frio e calor No meu corpo tanto faz Estou anestesiado, paralisado O passo seguinte é automático Mas pelo menos é para frente Sou cavalo, não olho para o lado Vou soprar fumaça Encontrar graça nas nuvens Vou criar uma cortina Abrir, fechar Ultrapassar os limites Esconder meu corpo Beije meu corpo Antes que seja tarde Antes tarde do que nunca Fique comigo enquanto estou louco